11 janeiro, 2010

Dia 9 – Tocopilla – Calama – Santiago ou “O dia da Uruca”

Calçadão de Tocopilla

Em viagens, tem sempre um dia que é mais zicado que qualquer outro. O nosso foi este dia. Já acordamos com o ovo virado de ter que ir embora do Dakar agora que as coisas tinham começado a ficar boas. Numa tristeza danada demos nossos adeus, mas antes mesmo de poder sentar no ônibus e chorar as pitangas fomos avisados pela Tur Bus que o ônibus que pegaríamos não desceria até Tocopilla porque a estrada estava fechada por conta do rally. Na verdade, nós entendemos com isso que éramos os dois únicos passageiros e que eles acharam que não valia a pena descer a pirambeira da Serra Pelada que cerca Tocopilla pra pegar os dois manés que precisavam chegar a Calama sem falta para pegar o vôo pra Santiago. Acabamos contatando por indicação do hotel um taxista que além de falar português e mais umas 6 línguas, já tinha viajado o mundo todo (inclusive ao Brasil, onde ele dizia ter deixado algumas chicas chorando por ele).

Nosso Tocotaxi!

Naquelas alturas e sem outra alternativa viável lá fomos nós no taxi preto e amarelo, aparentemente padrão em todas as cidades por onde estivemos. Don Jorge, que era uma cruza de chinês com italiana, dizia já ter trabalhado como pintor, mineiro, eletricista, mestre de obras, morou na Itália, no Brasil, nos EUA, falava inglês fluente (o que eu pude confirmar) e devia ter uns 150 anos por tudo o que disse ter feito. Nos serviu balinhas, colocou músicas americanas dos anos 70 e foi nos contando a história do Chile, da colonização da região, do deserto, durante as duas horas do caminho entre Tocopilla e Calama.

Nosso guia no deserto

O único senão é que o carro não tinha ar condicionado e era preto que só, então conforme avançávamos de volta para o deserto, a sensação de sauna seca era cada vez mais inevitável. Ele nos explicou sobre a extração de cobre na região, que os chineses que víamos pela região chegaram ali para a construção das ferrovias, que as cidades foram construídas ali baseadas no velho oeste americano (e assim foram esquecidas), que os mineiros ganhavam em torno de 50.000 reais por ano, mais adicionais de insalubridade, que Bernardo O’Higgins, presente nas placas de várias das cidades por onde passamos, foi o libertador do país das mãos dos espanhóis no século 18, e por aí foi nossa conversa, só interrompida quando ele renovava seu cheiro com algumas gotas de um perfume “Kenzo” comprado dos camelôs que pipocavam na avenida central de Tocopilla (o primeiro lugar em que os vimos, aliás).
O resto do dia foi de espera no shopping e no aeroporto de Calama.

Pôr-do-sol na saída de Calama

Mas, como dia de uruca vai até o fim, tivemos que esperar uma hora no saguão do aeroporto até que nossas malas fossem trazidas para a esteira no aeroporto de Santiago, e, ao finalmente chegar ao hotel que havíamos reservado, demos conta do engodo em que havíamos nos metido. Eu já devia saber que íamos ter problemas quando vi a placa de “Welcome backpackers” na entrada, mas resolvi ter um pouco de fé na humanidade, já que era 1 hora da manhã de um longo dia de trânsito. As fotos do hotel e a informação vendida pelo site e pelas revistas de turismo que vimos não tinham nada a ver com a pocilga que encontramos na nossa frente. Além do quarto ser sujo e cheirar a mofo, tinha uma banheira para anões, que supostamente é o local pra ser tomar banho e uma internet que só funciona na propaganda. Fomos dormir com raiva da enganação que ainda nos sairia por R$ 103, dispostos a resolver o problema assim que o sol raiasse.

Dia 8 – Largada de Antofagasta – Iquique – pouso em Tocopilla

Não eram 7 da manhã e todo o circo do Dakar já estava funcionando para a largada de motos, quadris, carros e caminhões a alguns quilômetros dali. Tivemos tempo de conversar com os brasileiros e ver de perto os pilotos gringos dos carros que já se enfileiravam para a largada. Uma coisa que muito nos impressionou foi a cobertura completa da Fox Sports chilena. Enquanto os brasileiros eram vencidos um a um pela crueza do deserto, no Brasil, na maior parte da mídia não especializada do país só se falava da troca do técnico do 15 de Piracicaba e do novo corte de cabelo do Ronaldo. Novamente, impossível não falar dos banheiros públicos... Digo, a céu aberto. Alguma coisa no refeitório da Sodexo no bivoac (o nome usado para o acampamento oficial) não caiu bem aquele dia, pois por todo lado sumiam pilotos atrás das dunas, carros ou qualquer barreira de um lado só que desse um mínimo de privacidade.
A segunda parte da prova assistimos de Quillagua, literalmente um Oasis no meio do deserto e o maior calor que passamos desde o começo da viagem. Nenhum protetor solar resolvia a ardência com que o sol queimava a pele, o que me fez entender o esquema de roupas em excesso, e não em falta, dos nômades do deserto. Não dá pra deixar nada descoberto. Vencidos pelo sol, passamos no único boteco da região para tomar qualquer coisa que fosse gelada e qualquer coisa que fosse de comer (note-se que a gente deixa de ser seletivo em algum momento da vida no deserto) pra ver a Glória Menezes e a Patrícia Pillar debatendo em bom castelhano dublado em plena televisão chilena. Me ofereci pra contar o final da história que eu nem assisti para o senhor da vendinha, mas ele não ficou muito feliz quando eu disse que a vilã só pagaria seus pecados no último capítulo. Uma coisa importante que aprendemos depois do nono erro (aqui novamente) é que as garrafas de água de tampa vermelha são sem gás e as de tampa azul são com gás, o exato oposto do Brasil, o que nos concedeu mais uma garrafa d’água com gás que não mata a sede como a outra de jeito nenhum.Como não conseguiríamos chegar em Iquique e voltar a tempo de pegar nosso ônibus para Calama na manhã seguinte, acabamos voltando para Tocopilla, uma cidade (não sei se se encaixa bem na descrição) portuária de pouquíssimas opções de hospedagens razoáveis, e que ainda tivemos que disputar com 6 cinegrafistas croatas. Assim acabamos num hotel ruim pacas, comendo um peixe frito no mercado municipal, o que nos pareceu a opção mais segura, mas ainda assim regado a cerveja para matar o que viesse junto e fazer backup das fotos antes de cair de cansaço na cama. Uma coisa não dá pra reclamar: até o hotelzinho mais mequetrefe do interior do Chile tem internet wi-fi e TV a cabo!

Dia 7 – Antofagasta – chegada do Dakar

Precisamos rodar uns bons 130 km pra sul de Antofagasta para ver a etapa da prova que vinha de Copiapó. O lugar escolhido: uma duna antes da chegada no meio de que? Do nada, é claro, afinal, estamos no deserto. E, neste, caso, diferente de San Pedro, que fica localizada nas alturas, um deserto dos muuuuito quentes. Uma coisa é interessante a respeito do deserto, como ouvi dos próprios chilenos enquanto esperávamos ali. As terras do deserto são de uso coletivo, todos podem desfrutar do espaço (que, diga-se é imenso), no entanto, há apenas a concessão do uso da terra, mas não a propriedade, como é o caso da enfiteuse no Brasil. Precisaria perguntar melhor, mas acho que escritura só existe nas cidades... O uso da propriedade e o desfrute do deserto ficou patente quando se estabeleceu tacitamente que os banheiros estariam localizados à direita dos carros. Esse negócio de banheiro no meio do deserto ainda seria tema de muito debate pelo caminho, mas comecei a acreditar que dizia respeito à liberdade (aliada à falta de estrutura) que o deserto proporciona. Mal havíamos acertado nosso acampamento particular, com churrasqueira e carne de “pavón”, quando uma tempestade-zinha de areia levantou nossa cobertura, transformou nossa carne numa milanesa sem ovos e quase nos mandou embora para casa, mas meia duna mais a frente conseguimos nos estabelecer novamente e esperar os brasileiros terminarem de passar (com direito a bandeira e tudo mais). Muito sol e quinze camadas de protetores diversos depois, voltamos para o acampamento oficial da prova para acampar em La Portada, onde já havíamos estado dois dias antes e onde seria a base oficial da prova pelos próximos dias. Terminamos o churrasco, agora sem milanesa, estreamos a barraca comprada na véspera e fomos dormir alta madrugada com vista para a cidade toda iluminada e ao som do gerador de uns argentinos sacanas que ficaram acordados até muito mais tarde que nós, enquanto debatíamos a possibilidade de afogar Buenos Aires com toda a água do Rio Paraná.

Dia 6 – Antofagasta (dia de descanso)

Intencionalmente ou por inércia, acabamos tirando o dia para resolver nossas pendências logísticas e comerciais, aproveitando que a cidade tinha estrutura para nos ajudar.
A passagem de volta entre Calama e Santiago não pode ser mudada, pelo menos não sem deixar nos cofres da Lan Chile o equivalente a uma nova passagem cada.

Parte histórica de Antofagasta

A maior parte do dia foi passada dentro do Mall Plaza, aparentemente uma rede de shoppings no país, com sentimentos que variavam entre a estupefação, empolgação e revolta com o tanto que nós somos extorquidos no Brasil. Descontei minhas frustrações no Taco Bell, que não encontrava havia 15 anos, desde quando ainda morava na Florida. Entre acessos de consumismo e o novo farnel no supermercado para os dias que se seguiriam, descobrimos que os chilenos não são, pelo menos não naquela região, pessoas multi-tarefas. É como estar no Nordeste do país dos outros (até geograficamente equivalente). Tudo é feito no seu ritmo, sem pressa, e para nós, paulistanos estressados, isso às vezes pode tirar a paciência até de um Jô brasileiro...

A cidade e as dunas
A cidade e o mar
A praça central

A noite foi de rearrumação de malas, pizza, mais “cervezas” (note que já havíamos criado um padrão) para levantar acampamento logo cedo e correr atrás do que havíamos ido ali pra fazer: ver o Dakar pelo último ano confirmado na América do sul.

06 janeiro, 2010

Dia 5 – Hornito, La Portada, Antofagasta


Há algumas conseqüências óbvias da falta de estrutura em uma praia como Hornito. Algumas delas só fomos descobrir com o raiar do dia. Pelo que pudemos observar, acampar é um programa bastante tradicional entre os chilenos, e eles não se contentam em levar somente o básico. Vimos famílias inteiras com mesas, geladeira, comemorando aniversários. Algumas tendas pareciam praticamente haréns no meio do deserto. Algumas tinham subdivisões internas, para que cada membro da família pudesse montar sua própria barraca. Pelo jeito também, é costume local levar tudo de casa, porque não se via sequer uma lojinha ou bar aberto, que dirá um camelô vendendo batata frita, picolé ou o que seja, como nas praias brasileiras.
Na praia inteira, somente um banheiro coletivo, em condições não lá muito higiênicas... A pergunta que não quis calar, neste ponto, foi “como estas pessoas todas fazem as suas necessidades já que o banheiro coletivo fecha às 9 da noite pra só reabrir no dia seguinte??”. A resposta só veio ao acordar, quando pudemos observar que várias das famílias tinham ao lado da barraca tendas/banheiros, que tive que fotografar por não saber explicar melhor, com vasos provavelmente de plástico, e com o produto sendo despejado aonde??? Exato! A idéia do que havia a alguns centímetros ou metros abaixo dos nossos pés foi suficiente para desmontarmos o acampamento e seguirmos para o próximo destino.Por isso, foi com muita alegria que encontramos pelo caminho La Portada, um monumento ao sul de Hornito e ao Norte de Antofagasta, onde formações rochosas que devem datar lá da Pedra Lascada criaram um portal de pedra natural em pleno mar, de 46 mts de altura e 70 mts de largura, onde é proibido acampar, entre outras coisas. Por ali, além de poucas pessoas, e, novamente, o comércio todo fechado, apenas uma dúzia de turistas desavisados, gaivotas, pelicanos, alguns leões marinhos perdidos e nós!Ficamos por ali, caminhando entre as formações rochosas, feitas principalmente de conchas, pelo que pude ver, até que a fome, o cansaço e o sol que queimava até o pensamento nos arrastasse até Antofagasta.Sendo a maior cidade da região, estrutura não foi um problema e depois de uma farta refeição no restaurante (caro) de uns chineses mal humorados, conseguimos achar um esquema hoteleiro diferente e perfeito para nós. Alugamos o que achávamos que seria um quarto para quatro pessoas, mas que para nossa surpresa era um apartamento inteiro de dois quartos, cozinha e banheiro (com ênfase neste último detalhe!) e acabamos alocando os seis viajantes por ali.À noite, o Festival de Teatro da cidade nos presenteou com a peça Firebirds, do grupo alemão Titanick, que se locomoveu pelas ruas da cidade, até terminar pirotécnicamente no pátio da estação ferroviária da área antiga e restaurada da cidade. Quase um Circo Du Soleil em pleno Deserto. Um refresco para os olhos e a alma, comemorado com cerveza Corona, papas fritas (nossa companhia mais freqüente) e muita risada até as 2 da manhã.

Dia 4 – Salar do Atacama, Peine, Mejillones, Hornito


Até empacotar a vida toda que estava espalhada pela pousada, já somava quase 11 da manhã quando nos despedimos de São Pedro. Em vez de fazer a rota padrão de São Pedro para Calama e então Antofagasta, resolvemos fazer uma rota menos óbvia e cruzar o Salar pela parte sul a caminho do mar, com uns poucos oásis perdidos à beira da estrada.Um coadjuvante bastante peculiar no deserto são as placas e sinais pelo caminho. É assim que descobrimos o número de habitantes de um determinado vilarejo e a altitude em que ele se encontra, dentre outros detalhes pitorescos. Foi assim que conseguimos descobrir que o vilarejo de Peine tinha pouco mais de 400 habitantes. Ali há, além do salar que cerca o lugar, uma formação rochosa que resulta em uma piscina natural de águas transparentes (e alguma sujeira no fundo, pois a comunidade usa o lugar para churrascos de domingo, como pudemos presenciar).O percurso cruzando o Salar e as minas de cobre pelo caminho foi o maior feito até então. O que se pode dizer de um percurso cruzando o deserto? A areia muda de cor, mas é, ainda assim, areia. Não se vê vida animal, vegetal ou humana até onde os olhos conseguem enxergar, e há horas de distância entre o contato com um lugar habitado e outro. No meio, somente o nada, que em algumas horas acalma e em outras desespera. Uma única parada estratégica num vilarejo a caminho de Antofagasta e alguns sorvetes depois foi com grande alívio que em duas horas, lá pelas 6 da tarde, enxergamos o mar. Ao invés de rumar diretamente para Antofagasta, resolvemos seguir para Mejillones, um balneário 65 km mais ao norte. Mal lembramos que era fim de domingo, pós feriado de ano novo, e não se via nada aberto na cidade, além do posto de gasolina e do banheiro público, sempre a 200 pesos por cabeça. Assim, rumamos um pouco mais ao norte até Hornito, para acampar na areia da praia (com outras 100 pessoas, porque aparentemente esse é um programa comum por aqui) sem luz, banheiros e, mais espantosamente, sem uma portinha de comércio aberta em toda a praia. Com um banquete de macarrão com sardinha pra matar a fome e muito vinho, dormimos vendo as poucas estrelas que estampavam o céu e com o vai e vem das ondas do mar de sinfonia.

Dia 3 – San Pedro (Geisers Del Tatio, Termas de Puritama, Machuca, Calama)

No deserto do Atacama, a altitude é um personagem dotado de características próprias. Durante o dia e dependendo dos passeios, você poderá variar dos 2400 mts da cidade até algo em torno de 4600 a caminho dos geisers. As sensações pro organismos desacostumados são das mais variadas, mas as mais comuns são falta de ar, náusea e dor de cabeça. Eu já tinha experimentado trabalhar a 3200 mts em Bogotá antes, então sabia que o que me esperava eram alguns dias sem fôlego pra subir nem ao menos três degraus seguidos...
Por este motivo e pelo frio de -9° C que nos esperava nos geisers (que funcionam unicamente ao nascer do sol, por isso o horário esdrúxulo para observá-los) que resolvi me juntar à metade da nossa turma que resolveu não ir. Eu já havia conhecido o Old Faithful, no Parque Yellowstone, anos antes, então minha curiosidade geológica já estava mais do que satisfeita. Assim, só posso transcrever que os que foram deixaram claro que NUNCA passaram tanto frio na vida.
Seguimos mais tarde para encontra-los diretamente nas Termas de Puritama, um conjunto de piscinas de água quente formadas naturalmente no cair de um rio, com uma estrutura bem organizada para receber os turistas que são despejados ali van atrás de van das 8:30 da manhã às 17:30 diariamente. O preço, mais salgado que os demais passeios ( 10.000 pesos), vale cada centavo depois que você encontra uma piscina de água quente e totalmente cristalina pra chamar de sua. Por isso, não vimos passar as 3 horas que ficamos por ali e só fomos sentir o estrago do sol bem mais tarde, pois o vento congelante que nos espera fora d’água não nos deixa perceber que nem todo o protetor solar do mundo salva de uma pelada dessas. Uma curiosidade deste lugar é que os banheiros não têm clarabóias, e sim um buraco no teto, já que nunca chove por ali.Com alguma relutância dos que já haviam passado por Machuca mais cedo e encontrado tudo fechado, rumamos para este vilarejo 30 km mais a frente das Termas, no caminho dos geisers para experimentar um churrasquinho de llama que servem por ali. Eu sei, elas são bonitinhas, mas ali estando.... O vilarejo tem 40 módicos habitantes, e fica a aproximadamente 4000 mts, com picos de 4200 mts pelo caminho. Eu, que não havia passado até então dos 3500 mts senti pela primeira vez náusea e dor-de-cabeça conforme subíamos. A falta de ar somente fazia com que eu considerasse seriamente a hipótese de abrir a boca pra falar, já que não dava pra fazer isso e também respirar. Por isso, preciso confessar que foi com certo alívio que chegamos a Machuca com tudo fechado e enfrentei novamente calada o caminho até os deliciosos 2400 mts da cidade.Banho rápido, um almoço corrido na agora já conhecida Casa de Piedra e rumamos no fim da tarde para Calama, para devolver o carro alugado e nos abastecer de dinheiro e mantimentos no supermercado e shopping da cidade. Dali em diante, seguiríamos num dos carros da turma, o que já estávamos fazendo desde a chegada, e que tornou o aluguel completamente desnecessário. Depois das dez, com a cidade fechada e as calçadas recolhidas em pleno sábado, a solução foi rumar de volta para São Pedro e jantar à meia noite do estoque dos mantimentos comprados e ir pra cama para poder levantar acampamento assim que o sol raiasse.

Dia 2 – San Pedro (Cejar e Licancabur)

Depois da epopéia do dia anterior, resolvemos por livre e espontânea inércia não nos mexer até depois do meio dia. Arrastei algumas coisas do armário para um solário muito bonitinho que ficava ao lado do rio, dentro do próprio hotel e tomei café da manhã escrevendo o episódio da véspera. Como não havia pão disponível na cidade ou qualquer lugar aberto onde se pudesse encontrá-lo, o negócio foi reciclar os da véspera junto com os mantimentos que felizmente havíamos trazido de Calama, e mais um restô da ceia. Como não conseguíamos chegar a um consenso a respeito do itinerário dos próximos dias, resolvemos focar no dia atual antes que ele acabasse. Com um mapa na mão seguimos para a Laguna de Cejar e Pietra, que não sei por que em todos os guias que encontramos, é mencionada como Cejas, com “s” no final...
As lagoas são, em outras palavras, buracos d’água cristalina que brota não sei de onde, mas que devido ao alto teor salino é impossível de se afundar. Mesmo que você não queira, você vai boiar! Portanto, o mais difícil mesmo é ficar em pé na água, porque os joelhos e pés sobem involuntariamente a todo instante. Outra curiosidade é que devido a este teor salino, qualquer nadador que ali adentre sai da água praticamente como uma picanha pronta pra churrasqueira. Fazendo o cálculo de sal no corpo mais sol do deserto, não é recomendável que se passe muito tempo por ali depois de sair da água, considerando que a única sombra que você vai achar é a do seu próprio carro e a prainha ao redor das Lagunas é feita de... sal, é claro! Ainda assim, a visita vale cada grama de sódio que ficará grudada em seu corpo até você voltar para a civilização, com suas roupas pinicando por conta dos pelos duros de sal que se enroscarão nela!

Devidamente salgados, tentamos várias rotas para chegar mais próximos do Vulcão Licancabur, aparentemente inativo, mas de uma rara beleza que pode ser vista de vários pontos da cidade. Depois de uns dois “nãos” por rotas proibidas, seja pelo perigo da altitude ou falta de segurança na estrada fechada e uma proposta indecente de pessoas locais para vendermos nosso combustível, chegamos aos pés do vulcão a 3250 mts de altitude, já nem passando tão mal assim, considerando o tempo de adaptação. Ao lado do vulcão um cânion de aproximadamente 20 mts de profundidade completa a paisagem de tirar o fôlego (considerando a altitude, às vezes literalmente). Muitas fotos depois, rumamos de volta a cidade já às 19 hrs, mas com sol ainda alto no céu, pra descobrir que o único posto de gasolina da cidade estava fechado por falta de combustível (!!!). Coisas de se esperar numa cidade deste tamanho, ainda que com tantos turistas motorizados por ali. Finalmente entendemos a proposta dos mocinhos da beira da estrada, mas como ainda não estávamos na reserva, rumamos para o hotel para o que devia encerrar a agenda de passeios do dia. Mas... Depois de muito debate sobre onde havia ido parar o jeans e o soft que eu havia colocado na mochila, descobrimos para meu muito contentamento, que eles haviam caído da dita cuja que foi carregada aberta enquanto íamos embora da laguna (com direito a fotos e testemunha, para contestar o argumento de que eu não havia colocado roupa alguma ali). Com o sol já baixando rumamos de volta para o salar/laguna, que diga-se, não é tão próximo assim, num carro popular alugado e adentrando o deserto em pleno cair do dia. Na entrada da Laguna havia um posto de guarda, então se estivesse por ali, eles deveriam saber informar. No entanto, nos esquecemos de vários itens básicos depois da discussão acalorada sobre as duas peças de roupa: primeiramente o juízo, de sair àquela hora pro meio do deserto, apesar de ser um caminho reto, a maior parte de asfalto, sem celular ou qualquer meio de comunicação que o valesse, num horário em que quase certeza tudo ali já estava fechado. Me arrependi várias vezes no caminho, mas foi difícil convencer o marido a voltar depois que ele já havia entrado no trecho “trilha” do resgate. A trilha sonora era apenas a respiração ofegante dos dois e um silêncio monumental, uma vez que no rádio só tocava salsa, e o ritmo não cai muito bem em rotas de perseguição... Chegamos lá com tudo fechado, nenhuma alma a uma distância de quilômetros, porém para meu choque e estupefação de brasileira, que conhece bem o país onde mora, minhas roupas estavam dobradinhas em uma pedra ao lado do posto de controle, aonde alguém havia deixado para que a dona as encontrasse. Sem tempo ou caneta para deixar uma nota de agradecimento e agora com noção do perigo, rumamos voando com um resto de sol se pondo por trás das montanhas e o Licancabur, muitas vezes durante o dia chamado de Nabucodonosor ou Tutancâmon, de testemunha. Às 21 horas cravadas, a hora do pôr-do-sol por aqui, estávamos de volta ao quartel general para compartilhar um estrogonofe improvisado que foi comido como o seria na Nigéria, considerando que não havíamos tido nenhuma refeição quente desde o almoço do dia anterior.
Juntadas a digestão da comilança e mais o descarrego coletivo e intenso acontecido na tarde, às 23 já havíamos mudado de idéia quanto a passear no centro da cidade e cada um caiu para o seu canto para acordar às 4 do dia seguinte e ver os gêisers ao amanhecer.

Dia 1 – Santiago – Calama – San Pedro de Atacama, or the Day that wouldn’t end

O dia um na verdade coincidiu com o dia 31 de dezembro. Saímos às 5 da manhã de Santiago para um vôo de duas horas até Calama.

Não acho que seria possível ter noção da dimensão do Atacama não fosse este vôo no nosso caminho. De um lado o Pacífico, do outro a Cordilheira e no meio... Nada! Ou quase nada... Ocasionalmente uma casinha ou uma pequena cidade aparecia fora da costa. Sendo conhecido como o deserto mais árido do mundo, não havia uma única nuvem que nos impedisse de ver a lua cheia se por no Pacífico enquanto por detrás da cordilheira vinha subindo o sol em pleno vapor.

Descer em Calama foi a primeira experiência surreal dentro das muitas que se seguiriam pelo dia. Além da pista propriamente dita por onde o avião desce e tem que taxiar, todo o resto do aeroporto é feito de ... areia!! Sendo um aeroporto pequeno, depois de descer, o avião faz meia volta pela mesma pista por onde veio e segue até a área de desembarque. A recepção, às 7:30 da manhã foi feita em forma de ventos que trincavam até o último osso do dedinho do pé e declarados 6° C, ainda que eu tivesse certeza que se tratasse de muuuuito menos. Pela única esteira do aeroporto todos os passageiros foram pegando suas malas, enquanto esperávamos sentados até que sobrássemos somente nós e algum grilo desavisado aguardando pelo mocinho que deveria nos entregar o carro alugado. Como a cidade é pequena, os agentes das empresas de aluguel de carro não fazem plantão no aeroporto, nem em pleno 31 de dezembro, principalmente porque todos os carros disponíveis na cidade já haviam sido locados. Contamos, pra nossa felicidade, com a ajuda dos 2 únicos agentes que estavam por ali pra ligar pro celular da pessoa responsável e apressá-la a chegar.

Lá fomos nós com nosso mais novo Toyotinha, procurar um mercado pra nos abastecer antes de seguir pra São Pedro, considerando que dados os últimos imprevistos, se nada mais desse certo, pelo menos teríamos o que comer até a noite.

Se pudesse descrever Calama, seria algo como uma Dubai de classe média. Um oásis no meio do deserto, e ainda assim com uma estrutura comercial bastante sólida. Pelo menos para viajantes de emergência como nós. Encontramos um bom supermercado e um shopping Center que equivaleria a qualquer um de São Paulo, compramos nosso café da manhã, um colchão inflável e dois sacos de dormir e partimos para São Pedro para encontrar nossos companheiros de viagem que vinham do Brasil até nosso ponto de encontro de carro. Nosso tempo de férias, porém, não permitiu que fizéssemos o mesmo.

No nosso caminho... deserto. Nenhuma novidade, considerando que já sabíamos onde estávamos nos metendo. Porém, pra quem nunca esteve em um deserto antes (eu já estive no Novo México, mas numa experiência totalmente diferente que não conta pontos aqui) não se tem idéia da dimensão do dito cujo até que se esteja lá no meio. Ele não termina nunca, e assim fomos acompanhados de dunas, erosões e outras modalidades de amontoar areia até nosso destino.

São Pedro do Atacama é uma cidade pitoresca (e acredito que neste caso, a palavra “pitoresca” tenha tido sua melhor utilização desde que eu a descobri na adolescência) de 1958 habitantes no meio do deserto. É uma São Tomé das Letras, que ao invés de ter sido contruída com pedras São Tomé, foi construída em adobe, no secume sem fim característico da região. As ruas são de areia e na rua principal, a Calle Caracoles, não se pode passar de carro. Assim, os turistas, que se apinham por ali vindos de todas as partes do mundo (mas naquele dado momento no tempo, principalmente do Brasil) caminham livremente por entre as lojas, e as tantas agências de turismo que pipocam por ali. Para uma cidade deste tamanho, a estrutura turística é incrivelmente organizada e há ótimas opções de restaurantes com atendimento bastante simpático. Como nossos companheiros estavam atrasados na chegada, achamos um canto bem bonitinho pra comer num restaurante chamado Casa de Piedra para fazer nossa primeira refeição que não saísse de um carrinho de aeromoça ou uma sacola de supermercado. Enquanto comíamos os funcionários do restaurante aprontavam um globo de discoteca que seria usado na festa de ano novo, mais tarde, junto com jogos de luzes coloridas que contrastavam drasticamente com as paredes de adobe e a cobertura de palha vazada que deixava um pouco da luz do sol do deserto entrar naquele espaço.

Foi com muita sorte, portanto, em pleno dia 31 de dezembro lotado de turistas, sem reservas de hotel, que achamos no 14º hotel, hostal ou camping, um chalé pra quatro pessoas, que convencemos a dona a alugar para nós seis. Nosso oásis particular àquelas alturas tinha dois quartos, uma cozinha e um banheiro com água quente. Tudo muito bonitinho e arrumado. Pegamos sem pestanejar.

Na cidade você achará opções que vão de campings de 7 reais por pessoa, até hotéis de 600 reais a diária, mas independente da sua opção de hospedagem, a não ser que você tenha ido até ali para ver a natureza única que circunda a cidade, não há muito mais que se fazer numa cidade de adobe e areia.

Assim, devidamente alojados no nosso cantinho, e depois de um cochilo de 2 horas, que seria o único sono que havíamos visto naquela jornada que já durava 32 horas, mas que ainda duraria mais 12, fomos para o Vale da Lua ver o último pôr-do-sol de 2009.

O Vale da Lua fica localizado 15 km para fora da cidade e tem este nome porque a natureza dali e da lua são algo muito próximo. A natureza do terreno faz parecer que você não está neste planeta, e sim em outro, como na Lua, em Marte, ou qualquer outro lugar aparentemente árido que você já tenha estudado na escola. Também como na lua, e segundo a guia do local, nada cresce e nada vive ali, nem animais peçonhentos ou inseto que se preze. Devidamente expulsos dali às 8 em ponto, por não haver luz que te guie para fora dali depois deste horário e cair em alguma daquelas crateras deve doer muito, paramos na descida da volta para ver a lua cheia nascer redonda e amarela por detrás do vulcão Licancabur, toda cheia de si, como toda lua que sabe ser a melhor coisa naquela hora da noite no meio do nada.

Como o dia não terminava, mas o ano sim, preparamos nossa ceia mais frugal desde que eu me conheço por gente que passa a meia noite acordada no ano novo. Queijo, uvas, abacaxi, melão, alguns pãezinhos e salame compunham a nossa ceia, junto com uma champagne que havíamos comprado no caminho em Calama, vinho, uísque e algumas outras opções etílicas. Resolvemos por celebrar duas vezes: às 11 horas, quando escrevemos e ligamos para os parentes no Brasil que já colocavam o pé direito no ano novo e depois novamente à meia noite local, junto com os outros chilenos e gringos que por ali se juntavam.

Para uma cidade deste tamanho a balada é algo mais próximo à Ibiza do que eu esperaria. Portanto, na rua principal, portinha após portinha anunciava naquela noite a sua festa particular. Acabamos entrando em uma cuja adesão não era cobrada. Já não devia me espantar a essas alturas quanto entre as salsas locais e as músicas eletrônicas que pontuam qualquer balada, espremeram nossa cultura mais rica, com o Melô do Jacaré ou o Bonde do Tigrão. Mas, como balada é balada e eu não estava muito crítica depois das já 42 horas tocando direto, conseguimos improvisar até alguma coreografia, que apontava os dedos para cada brasileiro que estivesse presente naquele espaço.

Foi assim que, aos 44 (horas) do segundo tempo e a pé, tomamos um banho quente e nos rendemos à cama. Não é necessário dizer que tudo isso foi feito a algo em torno de 2400 a 2800 mts de altitude e portanto foi sentido como se as 44 horas na verdade tivessem sido 88. Mas que cada uma delas valeu mesmo que tivessem sido 120!